sábado, 21 de novembro de 2009

3.

3. Três, três, três. Aquele era o segundo mês que eu via vir o dia três. Então eram três meses que eu esperava. Catarina, ah, Catarina. Onde estava você? Porque eu a havia deixado ir? Porque deixei meu orgulho falar mais alto e não perguntei aonde diabos você ia? Nunca havia me falado nada de sua vida, nos encontráramos naquela boate, e lá você me disse que não tinha pra onde ir, e acabou aqui em casa. Três semanas, felizes, nós dois. Três.  Mas nem me disse sequer três coisas a respeito de você.

Levantei da cama, e fui ao banheiro. Olhei para a calcinha que ela deixara pendente na torneira do chuveiro, e que eu depois pendurei no braço da porta corrediça do box, à altura do meu nariz. Sentei-me para fazer obra, e mais uma vez cheirei a coisa.

Tomei um banho demorado, e depois me vesti para ir trabalhar. Pensei em mais nada, trabalhar é bom para isso, eu me desligo.

 

Mas de vez em quando, no trabalho, eu penso em Catarina, e faço alguma bobagem. Nada que me traga alguma conseqüência, somente me acham estúpido, exemplo: trocar o nome de uma banda por outra, o bom de trabalhar como vendedor em loja de música é isso, você pode ser ignorante, afinal, inevitavelmente, o cliente sempre vai conhecer mais música que você, e o imbecil sempre tem razão, porque é cliente, mesmo que não tenha. Eu não costumava ficar de mau humor com esses fatos, mas o imbecil que eu atendia insistia em me fazer lembrar que Ella Fitzgerald cantava jazz, e não folk. Eu o havia levado para a seção errada. Oh. Como se eu ouvisse jazz. Ou folk. Prefiro LER o Scott Fitzgerald.

Assim que ele foi embora, sem levar nada – como todos os clientes deste tipo, os que classifico como imbecis fazem, entram, olham as prateleiras, pegam um CD, erguem aos olhos, como para fazer com que todos vejam que sublime objeto teve a glória de ser tocado por suas mãos, e depois, invariavelmente, fazem careta para dizer com isso que mesmo aquele sublime objeto merece o seu desdém e o imbecil ou o seu gosto musical é muito melhor que aquilo – continuando, assim que ele foi embora, sinto a mão me tocar o ombro, e me viro, no meu melhor espírito de vendedor:

- O quê?

E me arrependo como um... não sei. Pense em algo que seja todo arrependimento. Era eu. Bem, ela era linda. Esqueci o imbecil de pronto. Porque o que estava em minha frente era muito mais interessante que aquilo que havia saído há pouco. Morena, com cabelos castanhos longos até a bunda, e lisos, um rosto fino e jovem, nariz um pouco grande, o que dá a impressão de ser alguém respeitável. Seguro os globos oculares, não podia olhar o corpo dela direito ainda, mas à primeira análise, palmas, parabéns a ela.

Olhou-me um tanto impressionada pelo meu “quê?”, coisa que me apresso em mudar:

- Perdão, desculpe, não quis ser grosseiro com você, achei que fosse um colega da loja.

Logo o seu rosto ficou com a impassibilidade comum dos imbecis que costumo atender. Tenho a manha de classificar imediatamente o tipo de cliente. Se imbecil, ou se vira-latas. Esta me parecia uma imbecil. Perguntando como se eu fosse somente um computador que responde à sua voz, inquiriu sobre tal banda, e tal cantor, e eu, solícito, apontei nas prateleiras onde estava cada pedido seu. Aproveitei, e em uma de nossas passeadas pela loja pude ter liberdade para analizar seu corpo mais detalhadamente. Costas largas, como eu gosto; usava blusa de nylon preta, que tinha as mangas curtas e deixava aparecer as escápulas, e haviam músculos ali, que obedeciam servilmente a cada movimento de seus braços. Usava jeans surrados, com um cinto que só servia de enfeite, de tão folgado. Cintura fina, e uma bunda grande, maravilhosamente redonda, enfeitada pelos seus cabelos que dançavam soltos de lá pra cá. Decidiu levar dois CDs, uma coletânea de rock progressivo dos anos 70 e outro de blues, de uma coleção barata, mas que mostrava ótima mira de imbecil afortunado: Miles Davis. Pagou com cartão de crédito universitário, e ali pesquei seu nome, Vânia das Chagas Melo. Como não podia deixar de ser, e agindo da forma mais profissional possível, disse a ela que era norma da loja anotar o número do telefone de clientes que utilizavam cartão de crédito, para cadastro interno – profissional quando às minhas investidas, e cadastro interno da agenda de meu celular.

Para minha surpresa, quando pegou de volta o cartão, junto com o cupom fiscal, seus dedos roçaram de leve a palma de minha mão, e ela deu um leve sorriso. Educação? Bem, se fosse, todas as mulheres lindas com ela deveriam ser educadas na mesma escola. Para completar, disse, melodiosa:

- Obrigada. Você é um anjo.

Eu, um anjo? Ela devia estar de brincadeira. Era isso o que eu merecia por ter sido canalha, olhando medindo avaliando considerando mensurando seu corpo? Que coisa. Decidi fazer mais disso a partir de então. Dei o meu melhor sorriso servil e respondi, à meia voz, num forçado charme tímido:

- Eu é que agradeço a você... – e voltei ao tom profissional: - Volte sempre à Solfa (o nome da loja onde trabalho). Estaremos sempre esperando.

- Pode contar que eu volto.

E saiu, deixando um perfume leve e uma visão maravilhosa gravada a brasa em minha mente. Fiquei um pouco olhando pela porta de onde ela se retirara, com certeza com um sorriso babaca no rosto. Senti então a mão que não queria em meu ombro.

- Caralho, que gostosa, heim, Leon? – era Rubão, outro vendedor. O cara sempre tentava se aproximar de mim, puxando assunto, mas nunca me fora interessante levar à frente qualquer conversa com ele. Era como os clientes, achava que sabia tudo de música, e sabia mesmo muito, mas de quê isso me importa? Minha opinião: o cara tem que saber de música o quanto quiser, dentro de sua casa, onde o bom gosto é inevitável e invariavelmente o dele, e que se dane o resto. Porque dentro de uma loja de música, sendo vendedor, não importa o quanto você conhece música boa, o cliente, tanto do tipo vira-latas quanto do imbecil, tem sempre o seu próprio gosto, e não importam as indicações que você faz, ele não confia em você, no seu gosto, na sua família, no seu passado, no seu cheiro, na sua mão, “onde você esteve com essa mão cheia de dedos?” uma senhora me perguntou uma vez, quando eu, bobo, fui me despedir dela com depois de uma boa venda com um cumprimento. Mas tem cliente que entra na loja, que está com cada cheiro que eu não vou te contar. Falando nisso, um pequeno causo. Dois clientes vira-latas e eu. Eu ouvi, deu pra sacar inclusive de qual dos dois partiu o barulho, de alto que foi. O outro colocou a culpa em mim. Eu ri. Ele ficou com raiva. Eu fui claro: “meu amigo, quem soltou esse peido foi o teu amigão aí, esse não morre de fome, já até aprendeu a falar, quem tem boca vai à Roma, e cuidado que tem quem coma.” Quiseram me bater, ali, na loja mesmo. O gerente veio correndo. Resultado: quem ficou com a culpa de tagarela foi o meu cu. Não fosse uma situação tão esdrúxula, e os caras estarem comprando meio mundo de CDs, o que ia me engordar um pouco o salário no final do mês, eu não deixaria barato... no mais, isto reforça minha teoria de clientes coisificados. O Rubão me chamou peidorrento por um bom tempo depois disto. E ainda queria minha amizade!

Eu passo um tempo distorcendo a imagem ferrada a fogo em minha mente de Vânia, fazendo ela se contorcer em poses, e ele me mete a mão no ombro, e a trata de “que gostosa”. Era minha, minha!

- Ô. – respondi.

- Trocou idéia com ela? – a cara de babão, que ódio.

- Claro que sim.

- Onde tu vai almoçar hoje? – ele conseguia mudar de babão pra desvelado sua expressão em questão de milésimos.

- Nem te interessa.

- Abriu um restaurante duas quadras daqui, bora lá? – agora era pedinte.

“Nunca”, pensei.

- Não, vou almoçar com a Vânia.

- Que Vânia?

- A que acabou de sair daqui.

E ele saiu rindo. É fácil botar fora um cara egocêntrico: basta ser melhor que ele – mesmo que seja com uma mentira, mas não quero dizer com isso que não o sou, melhor que ele, estava me referindo à mentira que disse, o almoço com aquela deusa do cabelão. Eu me odeio, às vezes. Almoçar com ela poderia não ser uma mentira. Tinha o telefone. Ela havia me dado mole, era um mole pequenino, mas mole é mole. Só precisava ligar. Perguntar onde ela almoçaria. Devia estar por ali, estava fazendo compras, quem compra dois CDs, está de bobeira pela rua, e a hora do almoço estava próxima. Bastava ligar. Eu me odeio. Planejo tudo, em minha cabeça, tudo funciona maravilhosamente, mas nunca vou ao fim. De que me custava telefonar, no máximo do pior, eu ouviria algo desagradável, e ela desligaria o telefone, não seria agredido por ninguém, ninguém deve passar mal por tentar o que quer que seja, mas eu não consigo, não sou assim, não sei fazer assim. Ainda não entendo como tive coragem de ir dançar (? – que piada, danço mal, vou te contar) perto de Catarina, de falar coisas em seu ouvido, de chamá-la para fora da boate, levá-la para casa. Não sei de onde tirei audácia de perguntar a ela se estava a fim de ir para o universo paralelo (grande Lobão), que em casa eu tinha meios de locomoção para lá, se é que você me entende. Três semanas. Comigo. E como foi que eu a convenci a isso? Ou será que eu fui convencido por ela? Pode ter sido, é o mais provável.

Durante o que restava do expediente da manhã, atendi ainda algumas pessoas que, para minha total felicidade, eram profundos ignorantes no quesito música: vieram já sabendo o que queriam. Com este tipo de cliente é tudo ótimo: fãs de bandas de programas dominicais são o que eu chamo de vira-latas. Os melhores. Porque em toda loja de música, existem as prateleiras que eu considero latas de lixo. Axé, pagode, brega, funk carioca, sertanejo. Ou o que não se encaixa nestes estilos musicais, mas estão nos mesmos programas na TV, junto, lado-a-lado. Lixo. O que mais vende. O ser humano engole lixo, se esbalda, por isso tantos McDonald`s e Bob`s por aí. Uma fonte inesgotável de dinheiro, a escatologia humana. Como vendedor, eu adoro os vira-latas, muitíssimo melhores que os sabichões dos imbecis.  O único problema dos vira-latas é quando eles OUVEM ALTO o seu som. Nada é perfeito.

Saí para o almoço. Duas horas inteiras para mim. Segui para o restaurante do Mauro, onde costumava comer. Ia olhando os carros, as pessoas, as suas caras piladas pela vida, a minha também deveria estar, mas eu não tinha muito que reclamar. Estava empregado, conseguia pagar meu apartamento, comia bem – dentro de minhas necessidades, não sou um glutão – e, nos finais de semana, podia me dar ao luxo de tomar umas cervejas, dançar (? - rá), ver gente. O restaurante do Mauro ficava a três quadras da Solfa, a loja de música. Quando venci a segunda quadra, passei em frente aos vidros do tal lugar onde Rubão havia me convidado para ir almoçar, o restaurante novo que havia inaugurado. Olhei pela vitrine e, para minha surpresa, quem eu vejo do lado de dentro do balcão? Vânia das Chagas Melo, com suas costas largas, como eu gosto, a blusa de nylon preta, de mangas curtinhas, mostrando as escápulas musculosas, o jeans surrado, a cintura fina e a bunda grande, maravilhosamente redonda, que não dava para ver, mas eu sabia que estava lá. Bem, eu, como o Lobão, “parei, pensei e filosofei”. Bela mulher para convidar para ir para o Universo Paralelo. Imediatamente entrei no restaurante, me colocando em uma mesa discreta, ao canto mais fundo, meio escondido. Meti então a cara no cardápio, e fiquei lá, agora me achando o maior dos estúpidos, ceder a um instinto assim, e ao mesmo tempo de dizendo que aquilo ali é um restaurante, eu era o imbecil ou vira-latas naquele lugar e, pra compensar, eu seria um ótimo imbecil/vira-latas, trataria muito bem qualquer que me atendesse, etc., mas a sensação de estupidez não me abandonava. Estar ali dentro só porque eu queria ver mais uma vez aquela mulher, haver cedido ao instinto, e não ter a coragem de seguir em frente, me dava vontade de bater com a cabeça no vidro de azeite, e torcer para que a ponta perfurasse meu cérebro. Ia ser um belo fim. Então tive um estalo: e quando o idiota do Rubão aparecesse? Ele ia ficar com certeza me amolando, dizendo coisas para me fazer sentir ainda mais estúpido. Bem, seria pior sair correndo. Claro que eu poderia estar indo tirar o pai da forca, mas em meus pensamentos todos achariam que eu estava saindo dali porque era um covarde que tem medo de mulher linda. Afundei ainda mais no cardápio. E, que droga, nem ao menos havia visto direito Vânia. Na pressa em me esconder – tal e qual um animal rastejador, como o Lobão disse na música – nem tive coragem de sequer pousar os olhos nela.

- Boa tarde, senhor. Já escolheu? Posso anotar seu pedido?

Era ela. Ali, na minha frente, com um sorriso cândido, impessoal, o sorriso que eu devo dar geralmente aos clientes que atendo. Um sorriso que diz “olá, imbecil”.

- Er... Não, ainda não escolhi.

- Eiiii, eu o estou reconhecendo. Você é da Solfa, não é?

- É, eu trabalho lá. Você comprou uns discos. Uma coletânea. Um Miles Davis, que inclusive, está tocando agora, não é?

- E você ficou com meu telefone, com aquela desculpa esfarrapada...

Enrubesci, e fiquei quieto. Já ela, riu:

- Tudo bem, tudo bem. Gostei. Só espero que você realmente me ligue algum dia desses, pra ouvirmos alguma coisa juntos, o que acha?

Aimeutãoqueridosãoexpedito, o que era aquilo?

- Lógico, Vânia. Eu a ligo, amanhã.

- Liga mesmo? – beicinho, ela estava fazendo beicinho!

- Eu ligo. Palavra de escoteiro. – Eu, que nunca fui escoteiro, fiz o sinal deles.

- Ótimo. Posso recomendar algo para você comer, ou prefere ver o que lhe agrada no cardápio, senhor? – disse isso com um sorriso pilantra. Meusantodascausasimpossíveisexpeditinhoquirido.

- Eu vou escolher. Já chamo você.

- Então fique à vontade. – sorrindo, e voltando ao trabalho de coletar as ordens de outras mesas mais decididas.

Não, o sorriso não me chamava de imbecil, no máximo, a única coisa que me chamava disto ali era eu mesmo. O sorriso dela era de desafetação sim, mas havia ali preocupação com a minha escolha no cardápio. E a cantada que ela me deu? Ah, também, pudera: o restaurante acabara de abrir, ela não poderia estar sendo estúpida com seus futuros clientes assíduos na inauguração do lugar! Eu mesmo não estaria agindo assim, estaria? Bem, não era momento para filosofar sobre minhas idiossincrasias, eu não estava nem um pouco interessado em mim. Agora, seria muito estranho ela tratar a todos os clientes com tamanha sensualidade. Ou não? Não importa: o que importava mesmo era que ela havia dado aquela atenção a mim, e eu não poderia nunca deixar de aproveitar uma chance destas. Tinha é de pensar em alguma maneira de me aproximar, de fazer com que houvesse algum diferencial naquela situação de cliente-cantado-pela-dona-do-restaurante, porque, se ela agia assim com todos, bem, eu precisaria muito deste diferencial. Precisava chamá-la, e falar alguma coisa, qualquer coisa, oh, meu Deus, o quê?, mas não dava mais.

Não dava mais porque naquele momento, entrava no restaurante Catarina. Ao lado dela, um senhor, e ela de braços dados com ele.

Raiva? Não. Ciúmes? Não. Felicidade? Não mesmo. Era só Catarina. Era ela ali, à minha vista, depois de três, três, três!, meses de agonia onanista-saudosista-adolescente, de braços dados com aquele velho. Não pensei que fosse pai, nem amante, ou amigo. Não pensei nele, era um espantalho, e eu não sou corvo, ignoro. Não pensei nele, nem nela. Fiquei com a mente em branco. Um grande balde de tinta branco em minha cabeça, derramado. Catarse. Reset, reboot, sei lá. A minha cara devia estar pilada por aquele momento de minha vida de tal forma que devia estar não uma graça, mas uma graça. Ou uma GRAÇA.

Virei uma ema no cardápio. Observando meio escondido, imediatamente fiquei curioso sobre quem era aquele velho. Eles sentaram em uma mesa não muito longe da minha, mas para minha satisfação, Catarina ficou de costas para onde eu estava. Sai de trás do cardápio, agora obstinado a pegar algo na relação dos dois, algo que me informasse até onde iria aquilo.

Conversavam, e conversavam. Não dava para deduzir muita coisa dali. Mas eu olhava, birrento. Até sentir a mão em meu ombro.

- O quêêê? – isso é quase um berro, com uma mistura de raiva com susto.

Dessa vez, acertei. Era Rubão babão, para meu total desconcerto.

- Esperto, heim? Tu não me falaste que a gostosa trabalhava aqui. Claro que tu ia almoçar com ela, mas não com ela. Tsc, tsc. Podia ter me convidado. Uma mulher dessas nunca iria te dar mole mesmo. Nem a outra gostosa dessa mesa à frente, essa com o velhote.

- Cala a boca, Rubens.

- Ah, qualé, Leon? Normal, oras. Essas gatas aí são pra Mick Jagger, Bono Vox, algum milionário, ou então é tudo puta. Como tu achas que essa dona Vânia aí abriu esse restaurante? E essa aí da frente, tu acha que ela não quer que o velho morra logo pra ficar com a grana dele?

- Cala a boca¸ Rubens.

- Opa, me calo.

Ele calou, porque Vânia vinha em nossa direção. Sério, eu achei que ele ainda seria capaz de perguntar se não era mesmo uma puta. Acabaria com a música do amanhã.

- E então, já escolheram? – O sorriso era só para mim.

Rubão adiantou-se:

- Fettuccine. Qual o melhor molho de hoje?

- O branco, senhor.

- Pois é isso aí!

- E você? – perguntando a mim.

- Er, o mesmo, por favor.

Ela anotou, elogiou a escolha, e foi-se.

- “Oh, o mesmo por favor”. – Imitando uma bicha.

- Cala a boca, Rubens.

- Ah, Leon, é brincadeira, cara. Vamos mudar de assunto. Tá sabendo já quem está para lançar disco novo?

Eu não queria conversar. Catarina. Ali próxima de mim. Estaria Rubão certo? O que ela fazia com aquele velho? E eles só conversavam, e conversavam. Logo, enquanto Rubens falava acho que sobre o Zack de la Rocha, eu acompanhei a chegada do almoço deles, eles comendo, conversando, rindo. Rubens não parava de falar, nem mesmo quando chegaram nossos pratos, falava de boca aberta, asqueroso. Foi então. Que aconteceu. Eu nem sabia, mas estava mesmo era esperando por aquilo: o velho levantou, e foi para o banheiro. Imediatamente fui até a mesa de Catarina. Rubens ficou engraçado, de boca aberta me vendo ir até lá. Desta vez, fui eu quem tocou no ombro de alguém, e ela, educada, não me virou com um “quê?” tosco. Somente virou. E me olhou. Reconheceu. Levantou. Me abraçou.

- Desculpa, Leon. - me deu um beijo, em cada bochecha, e um selinho em meus lábios. – Mas eu não posso conversar com você agora. Passo em sua casa, amanhã, pra te explicar tudo.

- Amanhã, Catarina? Você tem idéia de que faz três, três, TRÊS meses que sumiu?

- Leon, amanhã. Agora, eu não posso conversar. Compreenda, agora, eu não posso conversar.

E, delicada, mas firmemente, me empurrou para longe dela. Nem olhei para Rubão. Fui em direção à Vânia, para pagar minha conta. Estava gostoso, muito gostoso mesmo, o fettuccine, eu disse a ela, só que não comera tudo porque havia uma urgência, e eu precisava muito de sair naquele momento. Claro que não precisava dar toda aquela explicação, ela mesma deve me ter visto conversando com Catarina e sendo empurrado por ela. Todo mundo viu.

Faltei ao trabalho na parte da tarde, indo direto para casa.

Jogado no sofá, arrancando pedaços de unha dos dedos, vozes me vieram à cabeça:

“Passo em tua casa amanhã, pra te explicar tudo”, disse Catarina.

“Liga mesmo amanhã?”, quis ter certeza Vânia.

Me dei conta de que precisava decidir. Não dava para confiar em Catarina. Ela podia mesmo ser uma puta, ou algo que o valha. Mas Vânia poderia ser uma leviana, afinal, dar em cima de alguém daquela forma não é coisa que acontece na vida de seres humanos normais. Eu tinha uma história com Catarina, de três meses, apenas, mas eu possuía aquilo, possuía uma calcinha pendurada no box do banheiro. Mas então pensei que seria também uma delícia possuir a calcinha de Vânia pendurada naquele mesmo lugar. Fechei os olhos, tentando lembrar suas curvas, seus sorrisos para mim, sua mão roçando na minha. O beicinho. O beicinho! Veio uma mistura de Catarina com Vânia em meu cérebro. Eu precisava, precisava mesmo decidir.

Dormi.

Acordei no outro dia, muito cedo, mas sem a mínima vontade de ir trabalhar. Vi no box a calcinha de Catarina, e, depois do banho, olhei para meu celular na estante. Lá constava o telefone de Vânia.

Tinha de decidir, isso era algo que eu devia fazer por mim.

Pensei; pensei, e pensei.

Então, decidi de uma vez. Nem me importei com a hora da manhã: peguei o celular e disquei. Chamou uma, duas, três vezes. Uma voz rouca de sono atendeu.

- Alhô.

- Fala, Rubão. É o Leon. Seguinte: quando sairmos do trabalho hoje, que tal irmos ver algum filme, ou jogar um boliche, heim, meu chapa?

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Carteira porta-cédula.

 

Márcia a encontrou sobre um telefone público.

Havia de tudo dentro: documentos, papéis, fotos de família, santinho de político, santinho de santo, cartões, outras coisas e dinheiro: R$ 23,45.

Reparou na seqüência numérica que a quantidade de dinheiro representava. “Dois, três, quatro, cinco”, pensou.

Colocou a porta-cédulas na bolsa, e pegou o ônibus que chegara.

Encontrou um lugar para sentar, ao lado de uma senhora que estava com cara de quem ia sair logo – sabia disto porque a mulher havia acabado de juntar as alças da bolsa, sinal infalível – e batata: duas quadras depois, pediu licença e saiu, deixando Márcia sozinha no banco, ao menos por um tempo. Duas alças, duas quadras.

Examinou a carteira melhor, e neste exame, dentre os papéis avulsos que estavam por todos os bolsos do objeto, encontrou um em particular: havia números nele. Sequências de números. Sequências. As conferiu: três. Examinou os cartões, procurando coincidências. Não deixou de notar que eram três também, os cartões. Depois, olhou pela janela onde estava, era o centro da cidade. Desceu.

Caminhou até o banco que representava a maioria dos cartões que encontrou na carteira. Foi sorrindo, porque eram três cartões diferentes também. Dois de um banco, um de outro.

Foi a um caixa eletrônico. Realmente, alguém por ai ainda deixa senha de banco em papel. E com a agência, e número da conta! O saldo: R$ 68.377, 69. Gostou do “68” e do “69”. Adorava coincidências, seqüências, coisas assim. Sacou para si R$ 1.000,00, o máximo que um caixa eletrônico libera por dia, e procurou em murais o nome do gerente da agência.

Saiu do banco e foi para uma casa de acesso à Internet, ali próximo. Lá, redigiu uma procuração em nome do dono da carteira, conferindo a ela mesma plenos poderes para agir no banco, constando o C.P.F., o R.G., e informações sobre a conta. Assinou: Gregório Fernandes Viçosa. Ficou parecidíssimo com o “Gregório Fernandes Viçosa  ” assinado atrás da R.G. Pagou a impressão e o tempo de uso do computador: R$ 2,34.

Sorriu.

Voltou à agência e, como havia muita gente no lugar, cada um tentando resolver seus problemas, a moça do caixa não viu nada quando olhou a procuração, pois logo a devolveu para Márcia. Esta lhe passou o papel com a quantia a ser retirada. Elogiou os brincos da caixeira., que prontamente começou a colocar os maços de dinheiro naquela máquina de conferir notas. Depois de sorrisos, e mais elogios, quando acabou a conferência, Márcia saiu do banco com a bolsa cheia. Estava feliz. Sua única preocupação era escolher em qual estação de rádio devolver a carteira do tal Gregório F. Viçosa. Olhou pela rua, preguiçosamente, de um lado a outro. Muita gente. Todos precisando muito daquela correria pra granjear o que ela trazia de sobra na bolsa. Começou a andar, iria a uma praça qualquer ali por perto, observar as pessoas, tudo parecia tão bonito, o sol, a feiúra das pessoas, o barulho, da rua, das buzinas... Durante vários momentos em sua caminhada, Márcia viu várias outras coisas agradáveis. O telefone de uma lanchonete terminava em 2222, o número de uma loja bem bonita e agradável era 678, e vários outros sinais de boa sorte. Uma vez na praça, iria limpar todas as impressões digitais, claro. Deveria também voltar à agência, para molhar a mão da caixeira, para ela não se lembrar de Márcia, afinal sabia que todas as informações como: o tempo exato, a caixa que está atendendo, a agência onde foi feito o saque... tudo, estaria no sistema do banco. Menos uma coisa. Bastava a moça não lembrar o rosto, e uma caminhonete em alta velocidade pega Márcia por trás, nos quadris. Só começa a frear depois do baque. Ela voa por uns três metros, e cai com as costelas sobre um calçamento um pouco mais alto, quase partindo seu corpo com seu peso e a velocidade do impacto.

Mas antes de morrer, Márcia sorri.

Algo de bom virá daquilo tudo.

Ela sorri porque quando voou e caiu onde caiu, pôde ver a placa da caminhonete que a pegara:

XXX – 1234.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Fita.

CENA 1.

Em fundo preto, os créditos corriqueiros de filme qualquer. Atores, produção, direção. O nome pode ter alguma frescura ao aparecer, isso fica ao encargo do quem quer que seja encarregado: FITA.

Incidental – “Vós sois o lírio mimoso...”

A música vai se fundindo com o barulho típico de pessoas reunidas, e aos poucos, fade in na frente da Basílica de Nazaré. A câmera percorre a festa, dá closes em pessoas interessantemente bizarras, e em outras coisas peculiares da procissão.

Narração sempre em off, a não ser quando alguém fala alguma coisa, o que só vai acontecer na terceira cena.

Foi no último dia de festa que amarrei a fita em meu tornozelo. Custou um real, preço irrisório para o tamanho da graça que eu queria me ver concedida. Havia várias coisas interessantes sendo vendidas ao redor da praça, mas eu sempre ouvi falar do poder destas fitas coloridas com nome da senhora mãe do cara lá (Círio de Nossa Senhora de Nazaré), que dizem que quando arrebenta – a fita, não a senhora – a graça pedida pela pessoa que teve a paciência de carregar aquele cordão até ele se desfazer com os banhos, com as esfregadas, acidentais ou não, em paredes, puídas pelo olhar agoniado de quem quer ver a coisa cair logo, então, a graça é concedida.

Já ouvi falar muito disto. Mas nunca ouvi uma única graça real concedida por algo assim, tão... nonsense. Mas me custou um real. O que é um real perto de uma possibilidade de experiência divina? ...Vale a pena.

Ainda passeei mais um pouco, creio que até cheguei a esquecer que tinha feito aquele primeiro contato com a “burocrática divinal superior”, através daquela fita roxa comprada de um rapaz sem camiseta e suado, carregando aquele cabide feito de cabo de vassoura com centenas de fita iguais, mas diferentes na cor. Comi uns sanduíches sem carne e tomei um refrigerante Baré. Fazia muito tempo que não via Baré. Nem Xingú.

De vez em quando pensava nas correntes de Internet, que imploram por coisas esdrúxulas, como enviar para outras cinqüenta pessoas o texto recebido, para que haja graça. Que se aquilo não for feito, algo de muito ruim acontecerá com a pessoa. Etc., etc. e etc. Nunca botei fé nessas coisas, nem mesmo leio, deleto tudo e não me preocupo nem um pouco com toda essa lengalenga. Mas uma fita? No tornozelo? Sem encher o saco de ninguém? Que me custou um mísero real? Tenha a santa.

Fui pra casa, sem pensar mais em nada.

Fade-out.

 

CENA 2.

Fade in. Em um apartamento comum, de dois quartos, o rapaz entrando em casa.

Incidental: qualquer baixo-bateria-guitarra da moda.

Cheguei em casa e comecei a estudar, depois de pedir pro Carlos baixar o volume do som do seu quarto. Faria o vestibular no próximo ano, e queria me preparar o melhor possível, por puro medo de não passar. Compreensível. Morava com Carlos há uns três meses, e nossa convivência era tranqüila: quase não nos falávamos, e quando o fazíamos, era de forma cordial e pacata. Ele sabia quando eu estava com mulheres em casa, e não atrapalhava nada, e eu fazia o mesmo. Nos sábados, quando não tínhamos dinheiro, sempre tomávamos uma cachaça com limão na boa, vendo algum filme na TV. Ele não estudava nada nunca. Para ele, faltavam ainda três anos para prestar o vestibular. Uma eternidade.

Fade-out.

 

CENA 3.

Fade-in na cena: o mesmo apartamento com pequenas mudanças no cenário, mudanças que passam a impressão de que três anos se passaram – que se vire o cenógrafo – o rapaz e seu amigo ouvindo juntos o rádio.

Incidental: Pinduca: “Alô papai, alô mamãe, ponha a vitrola pra tocar...”

O nome de Carlos saiu. O nome dele. Ele não estudou nada, e saiu. Aí está ele, festejando. Foda-se, vou procurar meu nome na Internet, mania escrota de só se ouvir resultado de vestibular pelo rádio. Mas Carlos me segura, onde é que tu vai, porra, fica aí, tá chegando a letra do teu nome, Juvêncio. Senta, senta! E me passa a garrafa.

Fiquei sentado. Passei a garrafa de rum pra ele. Cruzei as pernas, e vi a fita. Toda desbotada, puída, fodida. Três anos e a porra da fita não caiu. Terceiro vestibular que faço depois de colocar essa coisa no meu tornozelo, e ela não cai. Nem tenho capacidade de passar numa droga de vestibular, e fazer minha vida funcionar por conta própria Nenhuma graça concedida. Que sem graça.

Meu nome não saiu.

Tomei quase todo o rum, e fiquei pensando se não deveria arrancar aquela porra fora.

Fade-out.

 

CENA 4

Fade-in no quarto de Juvêncio, acordando de ressaca. Não há narração nesta cena, assim como na próxima. Esfrega os olhos, espreguiça, sente uma leve ânsia de vômito. Levanta da cama e vai para o seu banheiro. Tenta forçar o vômito, e não consegue. Cospe-se todo. Entra no box, para um banho. Lá dentro, descobre que está sem a fita em seu tornozelo. Terá arrancado enquanto bêbado? Saí do banho e olha pela sua cama, e lá está a fita. Caída, arrebentada por conta própria.

Fade-out.

 

CENA 5.

Incidental: Pinduca: “Alô papai, alô mamãe, ponha a vitrola pra tocar...”

Curta, apenas um flash da janela do apartamento dos rapazes, a faixa que vai de canto a canto de toda a extensão externa de seu apartamento: “Agradeço A Graça Concedida”.

 

CENA 6.

Fade-in dentro de um avião, Juvêncio e Carlos carecas, e vestindo trajes budistas, sentados lado a lado. Uma voz avisa: “Attention, passengers: landing in India in fifteen minutes”.

Quarenta e dois milhões, trezentos e cinquenta e sete mil, duzentos e cinco reais e vinte e nove centavos na loteria foi a minha graça concedida. Queria dinheiro para fazer minha viagem espiritual à Índia, e consegui muito mais do que precisava. E Carlos, quando soube que o pedido que fiz foi pensando não na Senhora mãe do cara lá, que eu apenas transferi, através da “burocrática divinal superior”, para Buda, ele num instante virou vegetariano e budista e se interessou em fazer a viagem para a Índia comigo. Na nossa bagagem, muito pouca roupa, mas algumas garrafas de Baré. Vamos passar muito tempo sem ver Baré. Gostamos de Baré. Quem não gosta? E de Xingú, então?

Fade-out.

Créditos finais.

 

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Andar sozinho, à noite, na rua.

Uma crônica, pra variar um pouco.

Logo volto com a ficção.

 

 

Em minha existência, tive algumas experiências em andar sozinho, à noite, na rua. Nada de problemas com caminhadas, ando bem, e sem reclamar. Isto combina com meu gosto de permanecer até a festa acabar, estando em condições de ver alguma coisa, ou não, mas perdendo todas as caronas possíveis, de uma forma ou de outra.

Claro, andar sozinho à noite, na rua, às vezes pode ser problemático. Excluindo o lógico, como: violências incontáveis com possibilidades reais de acontecerem; a chance de encontrar alguém, e este se apresente agradável no começo da jornada, uma companhia de pernada interessante, mas que, por algum motivo, como depois de alguns tragos na cara – a noite, na rua, pode oferecer coisas – se transforma num ser irreconhecível, com uma “aura de vergonha” daquelas que você não tem nada a ver com qualquer coisa que ele esteja fazendo, mas ao mesmo tempo tem tudo, só pelo fato de você estar andando com o indivíduo. Logo se envergonha de ser da mesma classificação taxonômica desta criatura em questão: ou ele mostra cotoco para uma turma que está parada numa esquina conversando com os braços cruzados, meio que olhando pra vocês, decidindo se vai ou não extirpar o pâncreas de ambos, ou mostra cotoco para policiais numa viatura.

Outro perigo óbvio em andar sozinho à noite, na rua: assaltos. Tudo bem, este é um dos que poderia estar incluído nas tais “violências incontáveis com possibilidades reais de acontecerem” supracitadas, mas é tão morbidamente interessante que vale um exemplo ou dois, um sendo este: depois do assalto, você poder seguir caminho, vivo, intacto, sem um arranhão – redundando mais ainda, agora! – totalmente incólume, ileso, intacto, íntegro...

Mas pelado.

Outro exemplo, clássico: você é assaltado, e por ter tão pouca grana, morre leva uma reprimenda do moleque assaltante. Ah, tanto melhor: tem gente que morre por isso, então, melhor a recriminação.

Eu particularmente, andando sozinho, à noite, na rua, me preocupo muito com os carros que passam devagar. Sempre acho que alguém vai, por diversão, me atirar alguma coisa certamente cortante ou fedorenta pela janela. Deve ser por conta da vez em que jogaram uma garrafa de cerveja próximo a mim e a um amigo. O corte na perna dele foi medonho, e minha reação, de tão desesperada, era engraçada, gritando SANGUE! SANGUE!, em desespero fêmeo.

Lógico que também haviam momentos gratificantes em andar sozinho, à noite, na rua. Eram as experiências, as situações, únicas, místicas, que não... costumam concordar consigo em acontecer mais de duas vezes na vida de alguém. Tudo bem, podem até retornar a acontecer, de forma diferenciada em alguns detalhes, mas apesar disso nunca, nunca, nunca serão as mesmas. Dois pontos: você está meio bêbado, sem grana, claro, e andando sozinho, à noite, na rua. Ainda tem algumas vinte quadras para caminhar, meio incomodado com as sombras entre os arbustos, curvas de muros, qualquer lugar de onde um pilantra pode brotar. De repente, para um carro do seu lado e lhe oferecem carona, com risos. Dentro, três mulheres e ora, o resto é fácil de imaginar. Ajuda? Misture as três, nuas, com “Feel good hit of the summer”, e dá para se ter um plano geral das coisas. Gratificante.

Ou, você está no meio da rua, observando obstinadamente a calçada que vai ter de subir, mas é um pouco mais alta que o normal, e exige que para ser escalada, você coloque mais de seu cérebro nas pernas. Caminhando em direção a ela, concentrando a encefálica nas coxas, depois de dois passos, você vê cair na calçada à sua frente um pombo, ou qualquer outro pássaro pequeno, não dá/deu pra distinguir (aconteceu comigo, mas imagine que é você, para perceber o efeito da situação). Então: o pássaro caiu ao chão, inerte, na calçada! Imediatamente, um gato pula de dentro de uma moita, provavelmente muito apressado e feliz – gatos não podem ser tão frios a ponto de não sentirem uma aflição enorme antes de abocanharem um bicho assim, tão fácil – e cai a mais três passadas de alcançar o passarinho. No último instante, porém, o inesperado acontece: uma coruja agarra o pássaro morto num rasante lindo, perfeitamente calculado, emocionante, capaz de despertar raciocínios incríveis acerca da maravilha que é a Mãe Natureza em qualquer um. Tudo isso, muito belo. Para a coruja, com um banquete, ou para você, mero espectador – mas gatos não podem ser tão frios, a ponto de não sentirem que acabaram de contar com ovo no cu da galinha.

Isso aconteceu comigo, e eu ri do gato. Qualé. Foi gratificante. Odeio gatos.

Até hoje, imagino se, na vez em que eu passei direto, bem pelo meio de uma turma mal encarada, conversando em pé numa esquina, turma exatamente do tipo que eu torcia para nunca aparecer em meu caminho, indo, nervoso, bem pelo meio deles, como se os conhecesse, falando com todos na maior, pedindo um gole da vodka que eles bebiam, então, imagino se, ao seguir rapidamente meu caminho da mesma forma que cheguei, como um raio, eles não simplesmente falassem “ei, porque a gente não meteu o bicho nele?”, e fossem fazer?

Eu imagino.

Andar sozinho, à noite, na rua, pode ser necessário, um dia pra qualquer um. Deveria ser um passeio; olhar o céu estrelado. Ou mesmo, esperar a chuva passar em alguma cobertura tosca de loja qualquer. Ter um momento seu, de autoconhecimento, comiseração, de pensamentos, de exercício.

Já tive algumas experiências em andar sozinho, à noite, na rua. Mas como não depende da própria pessoa continuar sozinha, não tenho receita alguma pra chegar vivo aonde se quer chegar.

sábado, 31 de outubro de 2009

Pela vidraça.

 

Não toque em nada, pois

Tudo corta.

Não fale, se não quiser

Ferir alguém,

Nem ouça, se não quiser

Sangrar também.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Cascalho.

     Aquela era uma rua muito movimentada.

     A possibilidade de alguém encontrar uma simples moeda de dez no chão era pequeníssima, justamente pela quantidade de gente que circulava por ali. Mas aquilo, Cascalho tinha certeza apesar de nunca ter visto uma daquelas ao vivo, só em panfleto de financeira, era uma nota de cem reais. “Cem reais! Tanto dinheiro em uma nota só!”, pensou Cascalho, estupidificado.

     Cascalho era desempregado, feio, maltrapilho, desdentado, fodido. Era sem-teto, mendigo, abandonado. Se qualquer um dentre todos os que tinham aonde ir naquela rua o visse baixando para buscar a nota, que estava encostada meio presa em uma raiz de um canteiro do passeio público, não o deixaria ficar com ela: os bem-aventurados é que devem receber os bônus que a vida tão raramente dá, e os fodidos devem ser fodidos, infinitamente. Mas, se o vissem se abaixar por se abaixar, ninguém ligaria para ele. Talvez ninguém ligasse de qualquer maneira - se, é claro, ninguém visse a nota - mas... poderia haver de acontecer de alguém olhar para ele uma única vez na sua desgraçada vida, e exatamente naquele momento tão íntimo, tão seu, e tão maravilhoso. Na alma, Cascalho sabia que não seria azar, e sim o sentido normal da justiça: ele e seus iguais não podem vencer nada, nem batalha, guerra, luta sequer. Mas Cascalho deveria tentar e perder, afinal, era o tipo de pessoa que está aqui para sofrer. O tipo de pessoa que sempre tem que ter as esperanças alimentadas, bem gordinhas, coradas, altas e saudáveis, para que a queda seja maior e mais dolorosa.

     Foda-se! Iria pegar o dinheiro. Enfiaria no bolso e se faria de louco, babando e gritando, ninguém chegaria perto dele. Fosse preciso, cuspiria na nota, esfregaria no pau, ninguém iria querer por a mão. Decidiu que iria também rir feito um depravado, e que esbugalharia os olhos vidrados pra tudo quanto é lado. Daria uns tapas na orelha, e uns saltos no meio da corrida. Faria de tudo pra fazer com que as pessoas o ignorassem, chamando o máximo de atenção. Já havia visto loucos agirem mais ou menos assim, e as pessoas simplesmente seguiram em frente, ignorando-os de forma completa.

     O fez. Foi delicioso o toque áspero da nota, tão nova, como se tivesse acabado de sair de um caixa eletrônico, se um dia Cascalho tivesse operado algum.

     Então, começou a se fazer de louco, babando e gritando. Pulava e, no meio de um dos pulos, enfiou a nota dentro da bermuda, e a ficou segurando com a mão, pelo tecido, embaixo do culhão. Quem quer que prestasse atenção nele, acharia que ele simplesmente gostava, na sua loucura, de pegar no pau. E sentia medo, muito medo de perder aquele dinheiro todo. Babava e gritava. Ninguém prestou atenção nele. Quando percebeu que a sua imitação dera certo, que ninguém estava interessado nele, começou a correr. Segurando o culhão, e a nota.

     Ou quase ninguém estava interessado.

     Enquanto corria, e revirava os olhos, segurando o conteúdo da bermuda, pau, culhão, nota de cem, viu que dois homens o perseguiam, gritando coisas que Cascalho não estava nem querendo saber. Era mesmo o sentido normal da justiça: o haviam visto apanhar a nota. Sabia que isso ia acontecer. Mas Cascalho não iria parar, iria mudar o ruma das coisas, iria vencer, vencer ao menos uma vez na vida, excluindo a primeira corrida fecundativa ao óvulo, sendo lembrado pela mãe durante nove meses, depois esquecido por praticamente o mundo todo, abandonado em frente a uma creche paupérrima, em direção à morte, pois quem nasce, começa a morrer.

     Porém, o alcançaram. Não poderia correr muito mesmo, há dois dias não comia decentemente. Imaginava o grande almoço que lhe escapava das mãos, que não viria mais. Agora, iria ser chamado de ladrão, apanhar, e ficar sem o dinheiro.

     Mas os homens que o seguravam eram apenas garotos. Estavam filmando tudo, de algum lugar escondido. Contaram a ele que sabiam de sua fingida loucura, que por isso não precisava babar e cuspir tanto em cima deles e do dinheiro, porque era desnecessário e nojento demais. Depois que Cascalho finalmente entendeu que eles não estavam interessados – incrível! – na nota, eles o levaram a um restaurante barato próximo, e pediram que ele escolhesse o prato feito que quisesse. Explicaram então, enquanto ele comia um dois P.F., era um pequeno filme que eles produziam, e Cascalho, o personagem principal. Já o filmavam há alguns dias, e as imagens que tinham eram o bastante para a editoração, e finalização. Ele podia ficar com a nota de cem, havia achado, era dele, e estava nojentíssima de qualquer forma; só não queriam que ele fugisse, queriam uma entrevista, e Cascalho a deu. Falou sobre tudo, sobre a justiça, sobre o mundo, sobre como via essas coisas tão concretas e tão subjetivas ao mesmo tempo. Falou sobre as exceções da vida, os próprios garotos, mas não escondeu a sua sabedoria de que estava de alguma forma sendo explorado. Falou isso sorrindo feijão macarrão arroz e peixe frito, consciente e satisfeito de seu perdão aos dois garotos. Afinal, eles o haviam pagado um bom almoço. E a nota era dele, só dele.

     O tal vídeo ficou pronto. E ficou muito bom, tocante. Os garotos souberam focalizar a atitude displicente das pessoas perante qualquer atitude de Cascalho, no seu dia-a-dia. As recusas de quando mendigava; a indiferença perante suas acrobacias com malabares na rua; as janelas dos carros que se fechavam quando ele ia pedir alguma recompensa por limpar um para-brisa. E o final exultante, com a cena tão dramática de Cascalho planejando a captura da nota de cem reais, e a sua brilhante e louca atuação perante os passantes. O pouco caso de vários rostos, o asco, a ignorância estampada. Isto, seguido da entrevista tão clara de pensamentos de alguém que nunca teve a chance de desenvolver seu conhecimento, mas que atingiu um nível de compreensão da humanidade tão grande, e somente através das experiências de vida na rua. Atingiu grande nível de visualizações e downloads na Internet. Os garotos foram chamados para outros trabalhos, entrevistas na TV. Como eram bons, ficaram, por assim dizer, bem pagos pelos seus trabalhos com vídeo, mas não esqueceram de Cascalho, aliás, Rubenildo Limoeiro (“Rubenildo” era o padrasto da diretora da creche, que a espancava quando criança, e “Limoeiro”, o nome da rua onde a creche ficava): lhe deram uma mesada até que ele se estabilizasse, arrumasse um emprego, pudesse sustentar uma casa.

     Cascalho Rubenildo estudou: fez um curso de eletrotécnica. Arrumou emprego. Virou então pessoa que não fica mais sentado na calçada. Agora passa rápido por ela e, infelizmente, não percebe mais ninguém ao chão. Passa barbeado, limpo, preocupado, incógnito. Já viu outras notas de cem, sem mais nenhuma emoção. Virou pessoa que tem de chegar ao banco logo, antes que feche, não pode deixar de pagar suas contas na data certa, porque não quer arcar com os juros. Não tem mais tempo livre, tem mesmo de andar rápido, tem de aproveitar, a vida é curta, pois quem nasce, começa a morrer.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Dono do mundo.

Bebia mijo enquanto pequeno.

Enquanto pequeno,

Cedo descobriu o sexo

Cedo descobriu a música

Cedo descobriu a mentira.

Brigava demais,

Comia barro,

Pegava em insetos,

Ficou imune a doenças.

Cedo descobriu que podia causar dor, e

Cedo descobriu que não a sentia

Cedo descobriu como ler as pessoas.

O ranho do seu nariz escorria sempre,

Chupava bala e entrava na sua boca.

No primeiro choro,

Só parou quando o peito da mãe veio.

(ela foi a primeira a ouvi-lo xingar)

Pegava em cocô e corria atrás das irmãs.

Hoje é o homem mais poderoso do mundo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Yin Yang.

Gibson queria parar de fumar. Sabia – todo o mundo fumante sabe – como ia ser difícil, porque comer, cagar, ler, foder, beber, nada disso iria mais ter a mesma graça.

Claro que existe o yang para compensar o yin, e Gibson iria economizar um bom dinheiro, além de diminuir a possibilidade de um câncer ou outra das várias complicações fisiológicas que o cigarro traz. Colocava mesmo o dinheiro como motivo primeiro:

- Doença a gente contrai respirando, ele dizia, passando de um lado a outro da boca um palito aromatizado sabor menta, que soube da existência através de um livro de espionagem que leu enquanto criança, e não recorda o nome. Passou a usar destes palitos, assim como o personagem do tal livro, para compensar a falta do tubo branco na boca, costume contraído desde os seus 12 anos de idade.

O problema de Gibson era simples: simplesmente não conseguia! Havia mesmo parado de comprar carteiras de cigarro, mas acabava pagando por unidades, o que resultava numa conta mais alta no final da semana. E ficava mais chato, pedindo cigarros o tempo todo nos bares, toda vez que os frequentava. Não sabia o que fazer e, quando não sabia o que fazer, fumava.

Para Gibson, o cigarro era uma forma de ficar só consigo; fumando, pensava nas coisas que teria de fazer dali por diante. Foi fumando que decidiu parar de fumar.

Tentou chicletes de nicotina, adesivos dermatológico de nicotina, acupuntura. Não deram certo, e um dos motivos era justamente a falta do objeto na boca. Então, entraram os palitos aromatizados. Experimentou junto os palitos – pelo costume de ter o cigarro dependurado na boca – com os adesivos. Não poderia nem tentar os palitos com os chicletes, por motivo óbvio. Ajudou. Mas... Saía muito mais caro que comprar uma carteira de cigarros.

O seu yin era a perda da graça do que havia de prazeroso em sua vida. O yang era a economia em largar o vício. E Gibson, ao comparar o yin com o yang, decidiu, fumando, voltar a fumar.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Chama o Kubrick.

Eu nunca havia escrito uma crônica. O que é uma crônica? É aquela vontade que você tem de escrever uma opinião sua quando vê algo legal, ou intrigante, ou mesmo idiota na TV, ou na rua.

Então. Crônica é algo que nem todo mundo quer ler, porque... "Ah, de que me serve a opinião desse cara?" Não é fácil conquistar a atenção dos outros. Me dê uma chance. Lá vai:



Muitas pessoas não acreditam que o homem já foi à lua em 1969. Motivos não faltam: após aquela famosa primeira vez, com Armstrong, Edwin "Buzz" Aldrin e Michael Collins, fomos de novo lá dar um tchauzinho pra Terra, certo, algumas vezes. É o que dizem. Porém, se ir à lua era para provar que os Norte Americanos eram melhores que os soviéticos, pra quê ir tantas outras vezes (11 ao todo), sem outro motivo?

Também considero que o uso do termo "lunático" se refira à sensação de que ir à lua é coisa de louco. Corrija-me se estiver errado, mas esta tal sensação não pode ser caracterizada como bom senso? E que bom senso havia naquela época de cortina de ferro?

Ontem, 8/10/09, vi num jornal que, para se saber se há gelo na lua, e responder à pergunta da colonização extrativista lunar – alguma colônia extrativista tem boa história pra contar? – o ser humano fará o seguinte: vai dar na lua uma pedrada com dois satélites para, através de fotos do Hubble e outros tantos satélites, e de observatórios que temos por aqui, observar a nuvem de poeira levantada pela dupla patada e analisar a existência de gelo. Certo. A última ida do homem à lua foi em 1972 (sempre por americanos, e todas se fizeram em um curto período de tempo: 4 anos). Não seria mais fácil mandar alguém lá? Não sei. Talvez o conhecimento de viagens estelares e a técnica considerada até então impossível de "alunissagem" tenha se perdido naqueles lisérgicos anos 70. Vai saber. Lunáticos.

Conjeturando que sim, que fomos até lá, eu pensei em um motivo para derrubar o que é, a meu ver, a principal prova que as teorias conspiratórias utilizam para afirmar a mentira por trás de tudo isso: as toscas fotografias com erros básicos de iluminação, onde aparecem várias fontes de luz projetando sombras em direções diferentes, sendo que a única fonte possível seria o sol, que é um só e pronto. Dizem ainda que o próprio Stanley Kubrick foi um dos responsáveis pela cenografia da coisa toda, que logo depois disso, usou a tecnologia (chroma key) em seu "2001, uma odisséia no espaço".

Eu concordo com tudo isso.

Mas, e se eles realmente estiveram lá? Pra quê o Kubrick?

Eu imagino o que houve.

 

Os astronautas já estavam de volta à sua cápsula de retorno, a nave que os traria de volta à Terra, a frase "É um pequeno passo para um homem, as um gigantesco salto para a Humanidade" já havia sido pronunciada, a bandeira americana já estava fincada, para total desespero soviético.

Os três, lá dentro, comemoravam, riam felizes, com o prazer de um soldado que cumpriu seu dever com louvor. Faltavam só umas caixas de budweiser pra selar bem a parada, mas isso eles não tinham. Quando chegassem à Terra, isso seria resolvido.

Estava tudo muito bem.

Até que, um dos astronautas percebe que eles tinham fodido tudo. Tudo, tudo, tudo!

Esqueceram de tirar a tampa da máquina fotográfica.


Chama o Kubrick.

domingo, 4 de outubro de 2009

Encanto.

 

Ao Walber Neves, que teve a manha de estar sentado ao meu lado numa aula da Regina Lima na UFPA, enquanto eu escrevia, e guardar com ele o papiro, por sete anos, digitar, e me mandar depois de tanto tempo.

 

 

Ela estava apaixonada por ele. Loucamente. Achava-o lindamente estranho. Alto, cabelo louro-sujo e meio calvo, totalmente despenteado. Unhas roídas, barrigudo, gordo. Tinha o dente da frente quebrado, o que lhe assegurava o sorriso mais sexy que ela já vira. E era desajeitado, enorme em cima da sua moto de 125cc. Tênis velho, calça jeans surrada e encardida. Vez ou outra aparecia com a camiseta do avesso. Totalmente desleixado. Um ar de "nem estou aí" perfeito para seduzi-la.

Era só uma menina com corpo de mulher. Peitos novos, enormes e atrevidos, desafiadores. Tinha boca exata e olhos sonhadores. Virgem. Ela e seus longos cabelos lisos pretos. Linda e linda. Pernas grossas. Acostumada já com o interesse masculino, o empenho de pedreiro, que assovia, e a chama de sua. Desbocada, debochada e ingênua. E estava apaixonada por ele, loucamente.

Decidiu que seria com este rapaz tosco sua primeira vez. Ele nem sabia da existência dela ainda. Ia à porta da escola apenas buscar e deixar sua irmã, na moto barulhenta – como é que a Camila tinha a coragem de ter vergonha da moto dele? Mas ela estava decidida. Seria com ele.

Reuniu informações com amigos e conhecidos. Descobriu todo o necessário. Morava com os pais, comerciantes, na casa de esquina da rua do alto. Era chamado Carlinhos, tinha 19 anos. Fumava maconha e bebia vodca com groselha em qualquer gramado de praça. Namorava a Adriana. Torcia pelo Corinthians. Gostava de Iron Maiden. Tinha duas tatuagens, mas eram todas feias, daquelas de carga de bic.

Então, um dia ela matou aula. Comprou um halls de cereja e um maço de Hollywood. Fumou 3 cigarros, escondida perto da escola. Esperou ele deixar a irmã na porta do colégio, esperou ela entrar, e o chamou pelo nome. Enfiou uma bala na boca. Tinha certeza que esconder o cheiro do cigarro com o halls era impossível, e que ele iria gostar de sentir o cheiro não escondido, e iria gostar. Disse que tinha um recado da Adriana, sua namorada. Não sabia ainda o que falar, não tinha bem um plano. Mas contava com um olhar capaz de cortar diamante e sua intuição de menina. Ele sorriu com seu dente quebrado, disse que acabara o namoro, não queria recado algum de Adriana, estava cansado dos ciúmes dela. Ela também sorriu: seria naquele dia. A conversa foi tomando forma. Foram colecionando coincidências felizes. Ele a convidou para um suco. Ela o queria. Queria naquele dia. Subiu na moto. Beberam o suco. Cantaram e riram. De novo na moto. Na casa dele. No quarto dele. Na cama dele. E foi assim a primeira vez dela.

Nos dias seguintes ele tentou encontrá-la. Queria mais. Queria namoro. Queria mãos dadas. Passeios de moto. Mas ela não quis mais nada. Não deixaria que acabasse o encanto.

E acabou.